sábado, 4 de setembro de 2010

Rousseau, vegetarianismo e a ética da compaixão

Em nosso encontro sobre Jean-Jacques Rousseau, num dado momento levantei o fato do suposto vegetarianismo deste pensador. Achei pertinente escrever algo sobre isso, com a finalidade de apontar para um dos pontos menos explorados na obra de Rousseau que, creio, é fundamental para o entendimento do espírito deste filósofo. Conforme bem salientou o professor Renato, Jean-Jacques Rousseau pode até ser contraditório em diversos pontos de sua obra, mas há nele uma unidade de princípios e - se muito não me engano - a compaixão é a "liga" que cola sua obra.

Em verdade, eu desconhecia o fato de Rousseau ser vegetariano, até me deparar com uma frase que constava na assinatura eletrônica de uma amiga médica que não ingere animais, Angela Mazzucco. A frase, supostamente atribuída a Rousseau, diz o seguinte:

Os animais que você come não são aqueles que devoram outros, você não come as bestas carnívoras, você as toma como padrão. Você só sente fome pelas criaturas doces e gentis que não ferem ninguém, que o seguem, o servem, e que são devoradas por você como recompensa pelos seus serviços.

Muito embora não tenha encontrado a fonte desta frase (repetida à exaustão em diversos sites pró-vegetarianismo), ela me parece real. Minha prudência tem razões de ser: qualquer estudante acadêmico já se deparou com frases supostamente atribuídas a autores diversos que, no final das contas, jamais foram escritas ou ditas por aquele autor. Fernando Veríssimo que o diga!

Mas é em sua obra "Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre os homens" que podemos ver a contestação de Rousseau aos hábitos carnívoros do homem, hábitos estes que são apontados pelo filósofo como incondizentes com sua natureza. Tal observação se encontra na nota H do livro, onde ele afirma:

(...) A respeito de tudo isso, haveria muitas observações particulares e reflexões que fazer, mas não há aqui lugar para isso e me basta haver mostrado, nesta pequena parte, o sistema mais geral da natureza, sistema que fornece uma nova razão de tirar o homem da classe dos carnívoros e de o colocar entre as espécies frugívoras.

Rousseau de fato defende o vegetarianismo, a partir do argumento de que nossos dentes e intestinos são mais assemelhados aos animais vegetarianos do que aos animais carnívoros. Em diversos momentos, ele aponta para o suposto fato de que a estrutura física do homem selvagem é melhor constituída do que a do civilizado europeu. Entretanto, vale dizer, mesmo as tribos ditas "selvagens" (dos africanos, por exemplo) não constituem um perfeito exemplo do que Rousseau quer dizer quando se refere ao BOM SELVAGEM. Mesmo os africanos já teriam se afastado do estado de natureza, que seria essencialmente bom. Ou seja: o "bom selvagem" rousseano é mais uma hipótese, ou lembrança mítica, do que um fato constatado em qualquer civilização ou época do planeta Terra, conforme lembra Freud a Einstein em sua famosa carta "a paz é possível?

A título de curiosidade, o melhor exemplo de "bom selvagem" que já encontrei pode ser visto no clássico "2001, uma Odisséia no espaço", de Kubrick. Ora, logo no princípio do filme é evidente que o ser humano vivia num estado da mais absoluta paz e harmonia com a natureza, e algo muda a partir do momento em que o primeiro primata assassina um animal e dele se nutre. A partir daí, surge o desejo de poder, o desejo de comandar, de liderar e de intimidar os mais fracos.

Todavia, ao que tudo indica (a partir de diversos estudos biográficos), e para desapontamento dos vegetarianos, Rousseau não era vegetariano, ou ao menos não um vegetariano tão firme quanto gostaria de ser. Ele apenas sugeria o vegetarianismo como um estilo alimentar superior, mas que ele mesmo não seguia fielmente. Isso me parece menos uma incoerência de Rousseau, e mais a dificuldade de acesso a uma alimentação plenamente vegetariana. Se mesmo hoje em dia um vegetariano precisa se desdobrar para comer, muitas vezes enfrentando problemas sociais, não conseguindo participar de jantares e almoços quando convidado, o que se dirá dos problemas que um adepto deste estilo alimentar encontraria na época de Rousseau...

Muito embora Rousseau de fato não pregue o retorno ao estado de natureza, tal qual Milton que, em "Paraíso Perdido", diz que "a inocência perdida não pode ser recuperada", o filósofo afirma que o cultivo de hábitos alimentares vegetarianos possibilitaria maior proximidade com o estado de natureza. Ou seja: se não é possível retornar completamente ao estado natural, ao menos podemos estar mais próximos.

Obviamente, estas teses de Rousseau são contestáveis. Na prática, o ser humano é melhor classificado como onívoro. Ademais, o próprio Rousseau toma como exemplo de "vigor físico" os selvagens caçadores. De todo modo, a proposta vegetariana (ainda que não praticada em 100% do tempo pelo filósofo) é coerente com a insistência de Rousseau em torno do tema da compaixão. A compaixão não seria apenas entre os homens, mas seria uma responsabilidade ética do homem para com todos os seres vivos. Contemporaneamente, o tema do vegetarianismo ganhou força em alguns meios filosóficos que, com argumentos sólidos e persuasivos, questionam com que direito tomamos os animais para nosso deleite. Que se destaque o fato de que Rousseau não diz que não somos capazes de digerir carne, o que seria absurdo, posto que somos. Ao que parece, ele salienta que a alimentação carnívora induz em nosso espírito características afastadas do estado de natureza, ou seja, trata-se de uma alimentação corruptiva. Não seria, portanto, um simples problema orgânico, mas a falta de compaixão implicada em se alimentar de um animal afastaria mais e mais o homem da natureza. A alimentação carnívora desencaderia problemas espirituais, problemas relativos à inclinação do temperamento.

Rousseau, diga-se de passagem, não é o único filósofo a sugerir o vegetarianismo como uma conduta alimentar mais adequada. Pitágoras, segundo historiadores, falava da importância de uma dieta lacto-vegetariana. Também o estóico Sêneca é descrito como vegetariano (o que, aliás, é bem coerente com o estoicismo, que rejeita tão fortemente todos os luxos e excessos).

Michel Onfray levanta questionamentos perspicazes contra tais idéias de Rousseau. Segundo ele, Rousseau cometeu o erro de querer converter uma regra particular numa regra geral. Se ele, Rousseau, tinha estômago fraco e era por demais sensível para comer carne (o termo usado por Onfray é "terno estômago de ganso com cólicas"), este seria um problema dele, e não da humanidade. O vegetarianismo seria mais adequado para alguns seres humanos, mas não para todos. E, além disso, uma pessoa não é "eticamente superior" por não ingerir animais mortos e nem sofre melhoria de temperamento por isso, muito embora - ainda segundo Onfray - muitos vegetarianos gostem de pensar isso de si mesmos, o que termina incorrendo em petulância e vaidade, além de amnésia ou ignorância de fatos históricos: Adolf Hitler era vegetariano, mas isso não serviu para que ele se aproximasse mais da suposta bondade essencial do ser humano. E apesar de citar Hitler neste parágrafo poder parecer uma clássica manifestação da "lei de Godwin"², me parece pertinente para ilustrar a arrogância que muitas vezes se subentende a partir do discurso de alguns vegetarianos que vêem a si mesmos como eticamente melhores do que o resto da humanidade onívora. Ainda que eu em particular concorde com os princípios éticos que norteiam o vegetarianismo, minha concordância não me faz ignorar aquilo que o próprio Rousseau tanto criticava: a vaidade. Vaidade inescapável mesmo para quem come apenas vegetais.

Ainda sobre este tema, não há como não lembrar da carta de Nietzsche a Gersdorff “A regra que a experiência fornece nesse ramo é a seguinte: os temperamentos intelectualmente produtivos e animados necessitam de carne. Qualquer outro regime só pode convir a camponeses e padeiros, que são apenas máquinas de digerir”. Bem, Nietzsche é Nietzsche, e mesmo quando é violento, é divertido. Mas a essência da crítica de Onfray encontra eco em Nietzsche: por ter problemas particulares com a ingestão de carne, o vegetariano realiza uma interpretação moral geral de um fato biológico particular, convertendo sua própria singularidade em regra para contato com a "verdadeira essência" (e, sobre essências verdadeiras, Nietzsche geralmente lança mil pedradas).

De todo modo, o que chama a atenção é o fato de que, sim, a questão da alimentação vegetariana fazia parte da ética rousseana, ainda que ele mesmo não seguisse o tempo inteiro - aparentemente por dificuldades práticas da época - este estilo alimentar. Concordemos com isso ou não, sigamos este exemplo ou não, o vegetarianismo é coerente com a única coisa que, segundo Rousseau, poderia nos melhorar: a prática da compaixão.

¹ Sobre a carta de Freud a Einstein em torno do tema "a paz é possível?", muito adequada ao tema do nosso curso, pensei em postá-la, mas acho melhor aguardarmos o nosso encontro em que o professor Renato exporá as idéias de Freud.

² A "Lei de Godwin", melhor conhecida como a "regra das analogias nazistas de Godwin", nasce de uma afirmação feita nos anos 90 por um advogado norte-americano, Mike Godwin, que diz:
"À medida que uma discussão na Usenet cresce, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou nazistas aproxima-se de 1 (100%).

12 comentários:

  1. Meu querido Alexey,

    Tenho certeza que você não comeria os seus animais de estimação ! Então porque comer os outros animais? O meu modo de pensar é que o vegetarianismo antes de ser uma questão de compaixão, é mais de coerência! Matar os outros animais não é justo, é um ato de exploração e violência que não condiz com a proclamada “superioridade humana”. Os animais não querem morrer, eles sentem medo , os seus pêlos ficam arrepiados, eles urinam e tremem tal como nós fazemos quando nos ameaçam de morte.
    Quanto ao fato de Hitler ter sido vegetariano, há muitas controvérsias, entre elas o fato de sua cozinheira, Dione Lucas, ter publicado um livro em que afirma peremptoriamente que o prato preferido de Hitler era pombo recheado ... Os médicos de Hitler o aconselharam a adotar o vegetarianismo para melhorar a sua saúde, mas ele trapaceava e fingia ser um vegetariano, comendo macarrão recheado com carne picante e coberto com molho de tomate !
    E a dificuldade em adotar o vegetarianismo, pode ser perfeitamente driblada com simples escolhas, BASTA NÃO COMER A CARNE, mas “somente” todo o restante: cereais (arroz, milho, trigo, aveia, e etc.), leguminosas (feijão, ervilhas, grão de bico, lentilhas, e etc), raízes (batata, cenoura, beterraba, mandioca e etc. ), todas as frutas, hortaliças, legumes, sementes oleaginosas e tudo o mais que a natureza nos dá.
    E termino aqui com uma citação que traduz perfeitamente o que vai na minha alma, sem nenhum medo de parecer arrogante, ou pela suposta pretensão de querer parecer ser eticamente superior, pois eu ainda prefiro estar do lado dos animais indefesos, e que nada podem fazer contra aqueles que ainda se comprazem em trucidá-los, quando existem tantos alimentos à nossa disposição :
    “A minha comida não chora, não grita e nem sangra antes de chegar no meu prato ...”
    Com um grande abraço jupiteriano da Angela, a mesma que você se inspirou para escrever este post ;-)

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  2. Salve Angela!

    De todo modo, note como todos os seus argumentos são fundamentalmente argumentos compassivos - e, é claro, não há problema algum nisso, ao contrário, até porque a compaixão está longe de ser um problema, parecendo ser ela mesma uma solução. Não sei se a única solução, mas neste ponto Rousseau converge com o Budismo, mesmo sem ter lido nada sobre o assunto [creio eu]: da distopia de nossa atual sociedade humana, poderíamos encontrar algum conforto apenas por intermédio da compaixão.

    Em verdade, eu diria que concordo com Rousseau e seu constante alerta a respeito da importância da compaixão, e acho coerente que ele defendesse tanto o vegetarianismo, ainda que não pudesse seguir a dieta que ele mesmo recomendava à risca, pelos motivos que expus no texto acima.

    O fato de Hitler ter sido vegetariano [ou não ter sido; que ele amava cães intensamente, isso é fato] é outra história: parece-me ingênuo crer que apenas a partir da mudança de uma dieta, seres humanos possam se tornar mais próximos ao estado original - e bondoso - de natureza. Este é o ponto, e não a desqualificação do movimento vegano a partir do fato de Hitler não comer carne. O fato é que a inclinação a se compadecer dos animais e não ingeri-los sem dúvida revela uma boa inclinação de caráter [e, ademais, não há estranheza alguma em perceber que Hitler também tinha um lado bom], mas UMA inclinação boa não exime ninguém de outras péssimas inclinações. O que quero dizer é que a mudança na dieta não é condição necessária, nem suficiente, mesmo sendo uma condição DESEJÁVEL.

    Mesmo a mais compassiva das criaturas não se furtaria a eliminar uma praga de piolhos que se acometesse em sua cabeça. A não ser, é claro, que a pessoa em questão seja jainista e ande pelas ruas varrendo delicadamente por onde passa, a fim de não pisar nem nas formigas.

    Em suma: também acho que a ingestão de animais esteja longe de ser uma necessidade. Mais que isso: sou fortemente inclinado a achar que ocorreriam imensos benefícios sociais e ecológicos pela simples eliminação do capricho de ingerir carne vermelha. O que eu não concordo é que isso seja NATURAL, ao contrário, isso seria o apogeu de uma utopia humana. Porque, se considerarmos a natureza como ela é, encontraremos muito mais brutalidade, animais comendo uns aos outros e sofrimento contínuo do que um mundo harmonioso. Ou seja: o vegetarianismo não me parece de forma alguma "natural ao ser humano", mas um ideal possível e desejável. E aqui está o sabor da bela contradição: buscamos o respeito à natureza não por imitá-la [imitando-a, seríamos feras], mas por negá-la.

    Grande abraço e bem vinda!

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  3. Bom... eu nao sei bem se estou correto, mas a natureza tem tantos vegetarianos quanto carnivoros. O topo da cadeia alimentar é sempre um carnivoro ou onivoro. E em numero é bem menor do que a base, que em sua maioria é vegetariana. Torna-se um vegetariano nao é negar a natureza, pois ela tambem contem o vegetariano e o carnivoro. O que nos vemos nas televisoes é aquilo que mais nos chama atençao, ver leoes, orcas, e outros animais do topo da cadeia alimentar, se alimentando. Mesmo pq, ver um bando de zebras comendo mato, nao da audiencia.
    Eu nao sou vegetariano, mas eu penso que estamos, como grupo, fadados a uma evoluçao intelecto-espiritual que nos leva TAMBEM a uma alimentaçao mais condizente com essa compaixao que ouvimos falar, mas que na pratica ainda é dificil de viver.

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  4. Thiago, entendo o que você diz, mas quando eu me refiro a "negar a natureza" não tem a ver apenas com o vegetarianismo, e sim com a fantasia de negar o sofrimento por completo, coisa que me parece impossível. O sofrimento faz parte da natureza [e como faz!]. A compaixão não é "da natureza", é - se for possível, e creio que seja - do próprio homem e talvez de alguns mamíferos [não o afirmo com certeza, pois não sei o que sente exatamente uma cadela ao adotar um filhote de gato]. A natureza não é compassiva. Ela é apenas... a natureza. Ser compassivo, ao que me parece, é justamente escapar da natureza, que jamais é boa ou má, mas apenas "é". Neste ponto, eu não posso deixar de concordar com Nietzsche em sua crítica aos estóicos. Diz o furioso filósofo que o erro dos estóicos está em sua presunção de interpretar a natureza como lhes convém, fazendo uma seleção conveniente.

    Além disso, como você mesmo diz, a natureza se revela em carnívoros, onívoros e vegetarianos. O homem não é como um gato, que é capaz de morrer de fome se só tiver tomates e brócolis diante de si. Também não é como uma vaca, que morreria igualmente, mesmo tendo diante de si um passarinho como possibilidade de comida. Tanto nos é natural comer de tudo, que assim o fazemos. Mas eu concordo contigo na essência da idéia: não precisamos de alimento animal para sobreviver, com exceção de alguns agrupamentos humanos que só dispõem de bichos para comer [um exemplo irônico são os monges de algumas montanhas. Rimpoche, que foi meu professor, comia carne, pois no Tibet não tem alface, nem tomate]. Além disso, há benefícios ecológicos se não no vegetarianismo, ao menos na diminuição no consumo de carne vermelha. Impossível não constatar a quantidade de terras convertidas em pasto apenas para alimentar vacas que nos servem de comida.

    Mas, mesmo concordando com a ética vegetariana, há algo que me martela o juízo, que me é impossível ignorar: esta postura ética, supostamente compassiva, não elimina nem a arrogância, nem a vaidade, nem a petulância. Convivi demais, por mais de dez anos, com grupos vegetarianos para poder ter qualquer vaga ilusão de que mudando de dieta "nos tornamos melhores", como aparentemente pregava Rousseau. Quiséramos nós que uma utopia social estivesse ao nosso alcance apenas trocando bife por cenoura... Minha simpatia pelo vegetarianismo vai mais por razões ecológicas do que pela idéia de nos tornaremos "melhores". Talvez eu seja muito cético mesmo.

    Abraços.

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  5. O post foi interessante porque levantou simultaneamente questões filosóficas e biológicas. Vou começar dando meu ponto de vista da última e em seguida falar da primeira.

    Enquanto médico, eu não vejo problema em nenhuma das alimentações, seja ela vegetariana ou onívora. O problema é não contextualizar isso para cada indivíduo. Está se sentindo bem? Está com os exames laboratoriais OK?

    Passei uns meses sem comer carne à noite. Quando eu subia um lance de escadas, eu ficava extremamente ofegante. Simplesmente, o diagnóstico foi de anemia ferropriva, confirmada pelo hemograma. Tive de tomar sulfato ferroso por três meses...

    É claro que o fato de ter ficado mal assim não se deve ao consumo de vegetais. Eu comia miojo à noite, era estudante sem dinheiro e sem tempo de ter uma boa refeição noturna... Mas é indubitável que tenho tendência a anemia ferropriva e melhoro um pouco mais os níveis séricos de ferro comendo carne do que vegetais. O tipo de alimento que apresenta uma maior taxa de absorção de ferro é o grupo das carnes, 30% de absorção efetiva pelo trato digestório humano contra 10% dos vegetais.

    A medicina chinesa é mais preocupada com a função medicinal dos alimentos do que a medicina ocidental, e por isso sua perspectiva acerca de restrições alimentares deve ser citada. Vocês acham que ela recomenda vegetarianismo? Não!

    Ao invés de recomendar restrições alimentares, a medicina tradicional chinesa mostra claramente que o problema principal não é "o que comer" mas sim "COMO e QUANDO comer". Nossa dieta tem que mudar com o clima, estação do ano, disfunção que o indivíduo apresenta, etc.

    E os vegetais também podem não ser tão "santos" assim dependendo do modo como são preparados... Um excesso de saladas na dieta pode enfraquecer o baço-pâncreas, gerando umidade/fleuma, que turvam o pensamento e comprometem o desempenho do trabalho. Isso porque o alimento ainda está cru e o baço demora mais para digerí-lo.

    É recomendável comer vegetais crus apenas pela manhã (e mesmo assim, não muito). À noite, se for para usar vegetais, que sejam sempre cozidos, preparados na forma de sopas. Digo isso porque tem gente achando que está fazendo um grande bem ao organismo enchendo o prato de salada à noite...

    Quanto à compaixão, penso no que se possa deduzir a partir dessa idéia... Se as pessoas que comem vegetais são compassivas, os onívoros são: (1)insensíveis ou (2)ignorantes que ainda não se iluminaram o bastante para serem vegetarianos... E, como o Alexey disse muito bem, comer apenas mato não faz ninguém uma pessoa melhor...

    E olha que eu nem se considero muito um amante das carnes... Eu sempre como no Health`s, que fica no centro do Rio e tem um buffet delicioso estritamente ovo-lacto-vegetariano. Mas no dia seguinte vou a outros restaurantes e pego uma suculenta posta de salmão ou o tradicional filet mignon "ao ponto pra mal passado".

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  6. Alex,
    obrigada pelo delicioso texto, obrigada a Rousseau por sua obra, obrigada aos budistas pelos seus princípios...
    Um grande abraço,
    Marihita

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  7. Olá Dr.R (Rodolfo?)
    Eu não sabia que na medicina tradicional chinesa o baço é considerado um órgão que tem a função de digerir os alimentos ! Foi isso mesmo que você afimou, ou eu entendi errado ?

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  8. É isso mesmo, Angela. O Baço-Pâncreas (BP) foi a melhor tradução para o ideograma "Pi" porque a descriçao das dimensões do órgão se assemelha às formas do Baço e do Pancreas juntas.

    BP tem as funções de transporte e de transformação dos alimentos. O Estômago recebe os alimentos, mas é o Qi (lê-se 'Tchi') do Baço Pancreas que transporta e transforma o Qi dos alimentos em Qi nutritivo.

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  9. Concordo Alex que ser vegetariano nao ilumina ninguem, apesar de ser um passo para isso, assim como tambem ter uma conexao com Deus (Vida, criador.... o que quer que queiram achamar) é tambem um passo em direçao de algo maior, mas somos seres dúbios, gostamos de algo e logo de desgostamos e ter algo de bom, nao impede termos milhares de coisas ruins e ainda alem... criamos um sistema de conduta e por conta disso eliminamos todos os outros, achando que somente o nosso é o correto. Isso serve para religiao, vegetarianismo ou qualquer outra relaçao imutavel que temos dentro de nos. Admiro quem ja tem a capacidade de tomar essas decisoes, sem esperar nada em troca de ninguem, nem mesmo reconhecimento. E leva sua vida na prática de que o mundo que esta fora vale a pena pq o mundo que esta dentro está em constante aperfeiçoamento.

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  10. Oi Alex,
    A minha perspectiva sobre “humanidade” está pautada na linguagem, mais especificamente, na linguagem sob o ponto de vista psicanalítico. Desse modo, considero que a relação do homem com a natureza é mediada, ou seja, é simbolizada, e portanto, “o homem” não É ( no sentido de ser naturalmente ou essencialmente) nem carnívoro nem vegetariano pois tudo depende do modo como cada um subjetiva ou digere a simbologia (cultural) que começamos a engolir desde que nascemos a partir da chamada " fase oral primaria", ou ainda, "a fase lunar" (0-6 meses). Nessa fase, "engolimos" muitas coisas inclusive alguns interditos que só irão fazer sentido mais adiante. Por essa perspectiva, posso dizer que não existe alimento que seja natural ao homem pois qualquer um pode servir de objeto para o seu desejo, isto é, de objeto garantia da insatisfação. Como se sabe, criança come fezes, e por isso, todo mundo já precisou de alguém que para nós a interditasse como alimento. Tem gente que não subjetiva tal interdito e continua comendo fezes na idade adulta. Por um outro lado, os anorexos não desejam alimento algum pois o objeto para o seu desejo é o nada. De todo modo, acho que qualquer um pode ser pego por uma ética da compaixão... Eu, por exemplo, estou numa longa fase de não comer aquele patê de fígado de ganso que você sabe que eu gosto muito pois não estou conseguindo digerir a crueldade envolvida na produção do famoso foie gras. Só não sei se é uma dieta definitiva. Pode ser que quando eu queira comer o fígado de alguém eu volte a comer o figado do ganso. Ainda bem que a linguagem nos permite o deslizamento pelas vias das metáforas,das metonímias... enfim, ainda bem que o humano se sustenta na lei da analogia. Salve Hermes! Salve a linguagem!

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  11. Muito bom, Kátia! Ri aqui com o patê de foie gras. Saudades de nossos papos regados ao patê cruel. Da próxima, levarei um patê de ervas finas pra colaborar :D

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  12. Gostaria, em primeiro lugar, de fazer duas perguntas a respeito dessa passagem: "uma pessoa não é "eticamente superior" por não ingerir animais mortos e nem sofre melhoria de temperamento por isso, muito embora - ainda segundo Onfray - muitos vegetarianos gostem de pensar isso de si mesmos, o que termina incorrendo em petulância e vaidade, além de amnésia ou ignorância de fatos históricos: Adolf Hitler era vegetariano, mas isso não serviu para que ele se aproximasse mais da suposta bondade essencial do ser humano." Primeiro, baseado em que se afirma que vegetarianos não são, necessariamente, ética e temperalmente evoluídos? Segundo, já não foi demonstrado que Hitler NÃO era vegetariano?

    Sobre dizer que na prática o ser humano é melhor classificado como onívoro, vale lembrar que Carlos Lineu, pai da Taxonomia moderna, afirmou: "A estrutura do homem, externa e interna, comparada com a de outros animais, mostra-nos que as frutas e os vegetais suculentos constituem sua alimentação natural". A classificação do homem como onívoro vem do fato da espécie humana ter um intelecto avantajado e toda uma anatomia que o permitiu criar métodos de alteração de alimentos como o cozimento, mas a anatomia, a fisiologia e mesmo a psicologia humana não possuem aquelas características evolutivamente adaptativas próprias dos carnívoros que justifiquem uma dieta carnívora. Basta dar uma olhada nas inúmeras doenças associadas ao consumo de carne para se dar conta de que essa não é e não deve ser a dieta adequada ao ser humano. O homem pode digerir carne, sim, mas digere mal (compare com a digestão de carne por um leão e leve em consideração a constatada falta de vitamina B12 entre os consumidores de proteína/gordura animal) e tem um custo fisiológico nem um pouco insignificante por isso (considere as doenças relacionadas ao consumo de carne, como colesterol alto).

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